A semana começou turbulenta para o Supremo Tribunal Federal — ou, mais especificamente, para o gabinete do ministro Alexandre de Moraes. Após a repercussão do vazamento de conversas atribuídas a assessores diretos do magistrado, revelando suposta manipulação de informações sobre os eventos de 8 de janeiro de 2022, Moraes reagiu da forma que lhe é característica: com mais prisões. Desta vez, determinou a prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro, como se a escalada autoritária pudesse ser contida com mais autoritarismo.
As mensagens, divulgadas pelo juiz assessor Marcelo Tagliaferro, revelam supostas articulações internas para sustentar narrativas que justificariam a manutenção prolongada e, em muitos casos, arbitrária, de manifestantes presos após os atos ocorridos na Praça dos Três Poderes.
Segundo os registros vazados, o próprio gabinete do ministro teria orientado a produção de relatórios e “versões oficiais” que ignoravam fatos ou fabricavam elementos para sustentar prisões — algumas das quais transformaram-se em sentenças severas, superiores a 17 anos, mesmo antes de qualquer audiência de custódia ou apresentação de provas concretas.
Mais grave ainda: segundo os diálogos, houve desrespeito explícito ao posicionamento da Procuradoria-Geral da República, que pedia a soltura de indivíduos cuja participação nos atos não estava comprovada. Apesar disso, pessoas sem antecedentes, sem provas contra si e sem envolvimento direto nos atos violentos foram mantidas presas e, em alguns casos, já foram condenadas com base em “indícios” forjados em relatórios sigilosos.
A ironia — ou tragédia — do caso é que o ministro que se tornou símbolo da “guerra contra as fake news” estaria, segundo as denúncias, usando justamente fake news para prender pessoas, ignorando o devido processo legal, a presunção de inocência e o mínimo de imparcialidade que se espera da mais alta corte do país.
E agora, com o cerco apertando, Moraes parte para o contra-ataque: Bolsonaro em prisão domiciliar, o gabinete blindado e a imprensa dividida entre o silêncio e o constrangimento.